Quem são os imigrantes que todo ano chegam clandestinamente ao Brasil

Nos últimos anos o Brasil viu crescer, significativamente, o número de imigrantes residentes no país. Atraídos pela expansão econômica da última década, e impedidos de acessar os países do capitalismo central como Estados Unidos e Europa, devido à suas políticas de fechamento de fronteiras, estes imigrantes, a maioria provenientes do Caribe e da África, muitas vezes acabam sujeitos a condições análogas ao trabalho escravo.

Embora muitos tenham conseguido acessar o mercado formal de trabalho e possuam formação, terminam por desenvolver atividades em categorias de baixo salário, como no setor administrativo, de comércios e serviços, construção civil e agropecuário, que se caracterizam pela intensa rotatividade da força de trabalho.

No setor agropecuário, por exemplo, o Brasil se tornou o maior exportador de carne do mundo, mas, em contrapartida, esta demanda de trabalho nos frigoríficos acabou resultando em longas jornadas e desencadeando um alto índice de doenças ocupacionais, tais como lesões, distúrbios mentais e até mesmo, quadros depressivos e suicidas. Enquanto os brasileiros rejeitam estes postos, eles ficam sujeitos aos imigrantes, fragilizados e vulneráveis por conta da falta de proteção social do estado.

Esta constatação vem no sentido de fortalecer o debate em relação as condições de trabalho no país, pois, apesar de suas particularidades, este não é um problema do imigrante por si só, como muitos podem pensar, e sim do mundo do trabalho e como ele se organiza hoje no Brasil. Neste sentido, o desafio da sociedade brasileira é o de garantir não apenas o recebimento, documentação e inserção no mercado laboral, mas também proteção social, inclusão nas políticas sociais, apoio na qualificação, no aprendizado da língua, na integração à cultura local e na preservação da própria cultura do imigrante.

Infelizmente, o que temos visto por parte de grande parte dos brasileiros é um forte sentimento xenófobo da população que reage com ódio e intolerância, esquecendo, inclusive, que descendem também de imigrantes. A xenofobia é caracterizada pelo medo do desconhecido. Como forma de preconceito, se manifesta através da aversão e da discriminação direcionada a pessoas de outra raça, cultura ou crença e, em alguns casos pode, inclusive, ser diagnosticada como um transtorno psicológico.

O Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), em Caxias do Sul, RS, é uma entidade particular, de caráter filantrópico, que atua desde 1980 com sujeitos em processo de mobilidade humana, e tem como objetivo ser um canal de assistência social a estas pessoas. Os programas desenvolvidos pela entidade buscam a integração do migrante no mundo do trabalho, a garantia e defesa de direitos, a mediação intercultural, além de desenvolver estudos e pesquisas sobre o tema.

O Mundo Jovem conversou com Abdul Jalil Abdullhahi, um jovem ganês de 18 anos que veio ao Brasil desacompanhado no período da Copa do Mundo e sonha em ser jogador de futebol. JB, como é chamado, foi atendido pelo CAM e como ainda era menor e não possuía nenhum familiar que se responsabilizasse pela sua guarda, foi encaminhado a uma Casa de Passagem, onde permaneceu até atingir a maioridade e mudar-se para Criciúma, SC, onde atualmente reside e estuda.

A história de JB é como a de muitos meninos africanos que se lançam em busca de melhores condições de vida, deixando para trás família, amigos e referências. Em um português básico, típico de quem está há pouco mais de um ano no país, mas determinado a aprender, JB falou sobre planos e a dificuldade de driblar a solidão, tão longe de casa.

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